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Entrevistas
“ESPAÇO
FERTILIDADE" - UMA NOVA ESPERANÇA PARA OS CASAIS ESTÉREIS
“Há casais dispostos a tudo para ter um
filho”
Por Zilda Monteiro
A esterilidade atinge actualmente um em cada cinco
casais portugueses. No total são cerca de 500 mil casais em
Portugal, cerca de 10 mil novos casos por ano. São números
preocupantes que fazem deste “um problema de saúde pública grave”
que, para além de muitas vezes ter na sua base doenças físicas,
conduz a outras patologias, criadas pela instabilidade e ansiedade
de ter um filho. Coimbra tem uma nova resposta para estes casais. O
“Espaço Fertilidade” abriu recentemente e assume-se como uma nova
resposta para todos os casais que querem e não conseguem ter um
filho. Em entrevista a “O Despertar”, Teresa Almeida Santos, médica
consultora do “Espaço Fertilidade”, apresenta as grandes inovações
desta clínica – Kit de Insiminação Intra-Uterina e Ecografia 3D –,
aponta algumas das causas que podem conduzir à esterilidade e traça
o percurso, por vezes longo e difícil, dos pais que “lutam” para ter
um filho, que continuam à procura de “uma última esperança e de um
último recurso”.
Abriu recentemente em Coimbra o
“Espaço Fertilidade”. Que tipo de respostas é que a clínica oferece
aos casais que tentam ter um filho? Nós pretendemos ter
aqui uma resposta de qualidade, integrada e diferente, o que passa
por ter (aqui), no mesmo espaço, a possibilidade de fazer o estudo
completo dos casais estéreis, quer do homem quer da mulher. Toda a
investigação pode ser feita aqui, inclusive alguns tratamentos e o
acompanhamento da gravidez, por médicos obstetras credenciados.
Realizamos também as ecografias, tendo a particularidade de poder
efectuar ecografias tridimensionais.
As ecografias
obstétricas em 3D são precisamente uma das novidades. É a primeira
clínica da região Centro a oferecer esta possibilidade?
Tanto quanto conheço, à excepção do hospital, é. No
hospital faz-se mas não com este intuito de mostrar o feto aos pais,
é mais com o intuito de melhorar a acuidade do diagnóstico. Nós aqui
também o fazemos mas, ao mesmo tempo, permitimos satisfazer a
curiosidade dos pais com umas fotografias do bebé.
Para pais que tiveram dificuldade em conseguir
conceber um bebé deve ser muito emocionante este primeiro contacto
com o filho. É muito emocionante para todos os casais,
até para nós médicos. Mas para aqueles pais que tiveram mais
dificuldades é, sem dúvida, uma dádiva. Os casais que tiveram uma
situação prévia de esterilidade naturalmente que é um segundo
presente. O primeiro é a gravidez, o segundo é esta antecipação da
vivência daquela nova criança.
O Espaço Fertilidade
é pioneiro na zona de Centro? Pioneiro neste tipo de
tratamentos em geral não é. (Há uma outra clínica em Coimbra). Mas
temos algumas inovações. Caso contrário também não se justificava
existirmos. Temos efectivamente a ecografia 3D e temos o laboratório
que presta serviços para médicos no exterior. Com a criação do Kit
de Inseminação Intra-Uterina - que é pioneiro, inédito e está em
vias de registo - nós podemos efectivamente proporcionar aos médicos
que trabalham na cidade ou em cidades próximas a possibilidade de
realizarem um tratamento, desde que haja indicação para tal,
recorrendo ao nosso laboratório. Isto sim é inovador.
Em que é que consiste este Kit? O Kit é
uma caixa que contém o material necessário para fazer uma
inseminação intra-uterina depois do esperma ser tratado e melhorado.
Um dos primeiros tratamentos que se pode fazer em termos de
reprodução medicamente assistida, desde que a mulher tenha trompas
permeáveis e o marido não tenha uma degradação muito grande da
produção de espermatozóides, é melhorar a qualidade do esperma e
colocá-lo directamente na cavidade uterina, mais próximo do local da
fecundação. O Kit tem um catéter por onde vai ser veiculado o
esperma depois de ser preparado no nosso laboratório. Portanto, o
indivíduo tem que se deslocar aqui e fazer a colheita de esperma
numa sala que temos para o efeito. Depois da colheita, é feita a
lavagem e o tratamento e o esperma é colocado num pequeno tubo que,
por sua vez, é colocado num recipiente isotérmico (tem a
particularidade de manter a temperatura). O Kit inclui também uma
seringa para colocar os espermatozóides dentro da cavidade uterina.
A nossa ideia não é vender o Kit mas prestar um serviço completo
porque não há a possibilidade das pessoas terem a preparação do
esperma sem um laboratório com condições para o fazer.
Os casais podem recorrer directamente à clínica ou
há alguma relação com os HUC? São coisas completamente
separadas. No hospital eu trabalho e dirijo o Serviço de Genética,
aqui é um contexto completamente diferente. É uma clínica privada,
onde os casais são observados com idêntica qualidade técnica mas,
eventualmente, com mais privacidade e com outra qualidade de
atendimento. Aqui podemos proporcionar um atendimento mais
personalizado, o que não significa que em algumas situações não seja
necessário prosseguir com tratamentos mais complicados e tenhamos
que encaminhar naturalmente os casais para o hospital.
“Muitas vezes chegam-nos casais que já têm
vários anos de tentativas frustradas, que já dispenderam
muitos milhares de euros em tratamentos e que não desistem.”
Estamos a falar de uma questão muito
sensível para os casais. Em termos emocionais como é que se lida com
um casal que deseja e não consegue ter um filho? Nem
sempre é fácil. Muitas vezes chegam-nos casais que já têm vários
anos de tentativas frustradas, que já dispenderam muitos milhares de
euros em tratamentos e que não desistem. Vêm sempre à procura de uma
esperança e de um último recurso. Naturalmente que é preciso usar
com todos os casais muito bom senso e não se podem criar falsas
expectativas. É preciso analisar a situação com todo o rigor
científico e toda a objectividade e traçar um plano e uma estratégia
dizendo desde logo se há alguma perspectiva de poderem vir a ter
sucesso. Se não houver, pura e simplesmente, devem ser encaminhados
para outro tipo de soluções, como a adopção. É preciso ter muito bom
senso, ser muito coerente. Naturalmente que é fundamental
estabelecer uma boa relação de empatia com o casal. Mas, o que eu
acho que é mais importante é transmitir ao casal que estamos
conscientes daquilo que estamos a fazer, que estamos a transmitir
com todo o rigor as possibilidades de êxito e que, portanto, temos
que tomar uma decisão em conjunto sobre se vale ou não a pena
insistir na terapêutica.
Infertilidade e
esterilidade têm o mesmo significado? A escola de
Coimbra tendencialmente, desde há muitos anos, diferencia as
situações. A literatura anglo-saxónica mistura-as. A tendência é que
com o tempo as coisas acabem por ser misturadas mas são
efectivamente diferentes. Uma situação de esterilidade é uma
situação em que um casal não consegue ter uma gravidez. É quando ao
final de um ano de relações sexuais desprotegidas a gravidez não
surge. A infertilidade tem mais a ver com aquelas situações em que o
casal consegue a gravidez mas esta não chega a termo porque há
abortamentos de repetição. São situações diferentes, com causas
diferentes e também sujeitas a abordagens e tratamentos diferentes.
Há alguns factores que podem conduzir à
esterilidade? Há. A esterilidade está a aumentar cada
vez mais e atinge um em cada cinco casais, o que significa cerca de
500 mil casais em Portugal, cerca de 10 mil novos casos por ano.
Portanto, é um problema de saúde pública grave, é um problema que
envolve também alguma componente demográfica. Estive, recentemente,
num evento científico na Suíça em que um cientista fez uma
conferência precisamente sobre o impacto destes tratamentos na
demografia. Cada vez mais na Europa as taxas de natalidade são
baixas e no nosso país é 1,5, é das mais baixas da Europa. Isto
quando nós precisamos de 2,1 filhos por mulher para podermos
assegurar a renovação das gerações. De facto, nalguns países da
Europa, como é o caso da Dinamarca, 6% das crianças que nascem já
são fruto de técnicas de reprodução medicamente assistida. Já é um
número importante. Portanto, o que se discutia lá é até que ponto é
que vale a pena o Estado investir e subsidiar de alguma forma estes
tratamentos, porque eles têm um impacto na natalidade idêntico às
outras políticas natalistas sociais. Penso que vale a pena investir
e ajudar estes casais porque é a única maneira de aumentar a taxa de
natalidade. Não podemos forçar os indivíduos que estão a fazer
contracepção a ter mais filhos. Agora se ajudarmos, com todos os
recursos, os casais que querem ter um filho e não conseguem aí sim
vamos, por um lado, satisfazer um desejo legitimo e, por outro, ter
um efeito positivo a médio prazo nas taxas de natalidade e nos
indicadores demográficos.
Podemos considerar a
esterilidade uma doença? É efectivamente uma doença. O
conceito de doença da Organização Mundial de Saúde é qualquer
situação em que há ausência de bem-estar físico, psicológico e
emocional. Ora, uma situação destas cria instabilidade, ansiedade e
mal estar. Portanto é uma doença. Por vezes tem mesmo na sua base
doenças físicas mas, só por si, o contexto da esterilidade e o não
conseguir geral um filho leva a perturbações psicológicas dos
indivíduos e do próprio casal que tem um impacto muito grande.
O querer ter um filho pode transformar-se numa
obsessão? De facto, às vezes, é obsessivo. Deparamo-nos
com casais dispostos a tudo para ter um filho. É preciso quebrar
essa obsessão, porque assistimos a casos de casais que têm a
obsessão de ter relações sexuais naqueles dias que pensam ser
importante para uma gravidez. Isso gera uma ansiedade enorme e as
pessoas passam a viver em função daquele objectivo. Essa é uma das
primeiras coisas que eu tento quebrar porque se as coisas
funcionarem bem não é necessária esta programação tão rigorosa.
Tentamos evitar este impacto tão grande na vida das pessoas.
Quais são os factores que podem conduzir à
esterilidade? São múltiplos. Naturalmente que os mais
apontados actualmente são o protelar da idade da primeira gravidez.
Cada vez mais o casal deseja uma gravidez mais tarde porque há que
terminar o curso, há que acautelar a carreira, há que ter o mínimo
da estabilidade, porque o Estado não ajuda. O facto de se adiar a
idade da gravidez significa que ela vai ser desejada numa idade em
que a fecundidade já vai ser mais baixa. A fecundidade começa a
baixar aos 28 anos, aos 30 continua a baixar, aos 35 tem uma queda
grande e aos 38 uma queda vertiginosa. Portanto, isso significa não
só que as probabilidades de tudo correr bem em termos de fecundação
e gravidez são mais baixas, como também ao longo do tempo se foram
acumulando doenças, situações de stress que elas próprias podem
gerar. Depois há outras causas como as doenças sexualmente
transmissíveis, as infecções, a endometriose (que é uma doença
relativamente frequente e que é causadora de esterilidade), a
exposição ao tabaco e a pesticidas.
Há mais casos de
homens ou de mulheres e qual é que é mais fácil de
resolver? Hoje é praticamente equivalente o número de
causas femininas e masculinas e em algumas situações há mesmo
problemas nos dois elementos do casal. Não é raro que isso aconteça.
As dificuldades na resolução dependem do grau da insuficiência. A
esterilidade masculina até há 15 anos atrás praticamente não tinha
solução. Faziam-se tratamentos empíricos. Hoje consegue-se com as
técnicas de reprodução assistida ultrapassar muitas dessas
situações. Quanto às causas femininas são múltiplas e portanto têm
diferentes tratamentos e taxas de sucesso. Depende muito da causa.
A taxa de sucesso é grande? Não tanto
como nós - e os casais - gostaríamos. Os tratamentos médicos e
cirúrgicos conseguem resolver 50 a 60% dos casos, o que não é mau.
Quando não se consegue com estas terapêuticas e é necessário avançar
para as técnicas de reprodução assistida aí temos normalmente uma
taxa média de êxito de 27% por tentativa.
Quem é que
decide quando é que se desiste? É difícil responder.
Quem tem que decidir sempre é o casal. Mas há um momento em que o
médico deve dizer que não há uma esperança para prosseguir com os
tratamentos. O médico tem que saber dizer chega, que já não é
legítimo avançar com mais tratamentos porque a probabilidade de
sucesso é muito pequena. Se assim não for, não estará a ser leal
para com os casais. Não se pode alimentar uma esperança quando ela
já é muito baixa.
“O médico tem que saber dizer
chega, que já não é legítimo avançar com mais tratamentos
porque a probabilidade de sucesso é muito
pequena.”
São frequentes os casos de
gémeos múltiplos nestes casos… Tentamos evitar que isso
aconteça. Cada vez mais isso é um peso muito grande, quer para a
família, quer para a sociedade. Os riscos inerentes a uma gravidez
múltipla são cada vez mais evidentes e tentamos evitá-los. Podemos
suspender uma terapêutica se ela for excessiva ou podemos transferir
um número limitado de embriões. Há que ter prudência, cautela e bom
senso. É claro que, por vezes, surgem imprevistos. Mas hoje
consegue-se aliar a uma boa taxa de sucesso a uma taxa de gravidez
múltipla muito baixa.
Há também o site, onde os
casais podem recorrer para tirar dúvidas… Acha que, sendo anónimo e
não presencial, se torna mais fácil o acesso para os
casais? A ideia é essa. Infelizmente, para muitos
casais ainda é difícil falar abertamente deste tipo de situações e
expor algumas dúvidas que, às vezes, são muito fáceis de esclarecer.
A nossa ideia foi poder partilhar e proporcionar aos casais essa
troca de informação, a título gratuito. A Internet é um meio
extremamente poderoso e nós temos todos os dias pessoas a
colocarem-nos perguntas. Em alguns casos, depois da troca de
correspondência, o casal acaba por achar útil vir fazer uma consulta
ou um exame. Mas o intuito da página não é esse. É esclarecer,
divulgar e poder proporcionar esta primeira abordagem e
desmistificar a situação, dizendo às pessoas que este é um problema
que afecta muita gente.
23.03.07
CW: André
Pereira

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